Capoeira

HISTÓRIA DA CAPOEIRA


A capoeira em sua mais completa definição e formação, nasceu no Brasil. Com o início da colonização, os portugueses viram no trabalho escravo um instrumento para o desenvolvimento desejado por eles. Tentaram a princípio, escravizar e explorar o trabalho dos indígenas que aqui viviam. Contudo, as características físicas e culturais, somadas à resistência ao trabalho cativo por parte dos índios, os levam à sua rápida dizimação. A saída encontrada pelos colonizadores foi a escravidão negra, o tráfico de homens negros trazidos do continente africano para o início de uma grande saga que marcou a sociedade brasileira: o período das torturas, da lei da chibata e da morte como reguladora das relações de trabalho. O povo negro passou a viver na escravidão.


Já no início do século XVI, milhares de africanos foram desembarcados em terras brasileiras e, com eles, a história do país ganhou alterações. Inicialmente foi a mão-de-obra nos canaviais, depois na mineração e em outras atividades produtivas. Foram trazidos contra sua vontade, mas trouxeram a sua cultura, sua vivência e a semente da liberdade que nunca morreu, mesmo na terra marcada pelos horrores da escravidão.
Toda produção da colônia acontecia no campo. Com isso, num primeiro momento, os relatos da capoeira surgem como sendo uma dança praticada pelos escravos, no mato rasteiro que crescia após as queimadas das florestas para o plantio, chamado de capoeira pelos índios. Neste momento a prática da capoeira era de predominantemente rural, só se ouvindo relatos da mesma em fazendas e senzalas, como dança e também como luta perigosa de rebeldia dos escravos. Os negros capoeiristas eram temidos inclusive pelos feitores das fazendas. Como as distâncias no campo eram grandes, não existiam tantas trocas de informações, ou festas que incluíssem escravos de fazendas diferentes, só quando eram vendidos para outros proprietários ou fugiam. Essas trocas, quando aconteciam, eram importantes, pois através delas que a capoeira se desenvolvia e se tornava conhecida entre os diferentes grupos de escravos. Este fato confima a afirmativa do texto anterior,uma vez que a capoeira começa a se desenvolver com a união das diversas culturas africanas no Brasil, possibilitada pelo mercado de escravos.


Contudo, essas trocas de conhecimento entre escravos cresceu, e através dela, escravos de diferentes fazendas eram informados das rotas de fuga para os Quilombos, disseminavam a capoeira e faziam o sincretismo religioso, dando continuidade às suas tradições e misturando suas culturas. As mais fortes influências foram as dos negros Nagôs e Bantus.

Os Quilombos são outra pagina importante desta historia, uma das mais fortes demonstrações da luta pela liberdade e da união dos povos africanos no Brasil. Eram territórios escondidos nas matas distantes das capitanias portuguesas, onde os africanos viviam novamente em liberdade. Espalhavam-se os boatos sobre novos Quilombos e suas rotas de fuga. Em geral esses boatos chegavam no momento em que o "Senhor" chamava grupos de escravos para transportar a mercadoria até o pequeno centro urbano das capitanias. Ali eram feitas grandes feiras, comércio de exportação, importação, venda de escravos. Era nesse momento que os africanos se encontravam com seus semelhantes de outras fazendas, trocavam conhecimentos e ao final das feiras faziam pequenas festas com batuques, cantos e as primeiras manifestações da capoeira. E foi através das feiras, também tão popular entre os portugueses, que os africanos se encontravam, unindo elementos essenciais para o desenvolvimento da Capoeira.

Com o término da escravidão, muitos negros se viram nas ruas sem emprego, moradia e alimentação. Por não terem outra oportunidade de sobrevivência, começaram a saquear e roubar, utilizando a capoeira como ferramenta de auxílio. Com isso, teve início o processo de degradação da capoeira, quando os capoeiristas passaram a ser vistos como vadios e delinqüentes. Em 1890, a capoeira foi proibida por lei, sob pena de prisão de 2 a 6 meses, permanecendo assim até 1937.


As três primeiras décadas do século XIX foram marcadas por constantes conflitos entre a polícia e os capoeiristas, que utilizavam armas como navalha e facões. Os capoeiras aproveitavam as festas do largo e apresentações para roubar, saquear, brigar e arrumar confusão. Seus principais focos foram os estados de Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro, onde neste último, era grande a preocupação do governo. Foi o extermínio total dos capoeiristas.

A criação da Capoeira Regional por Mestre Bimba (Manoel dos Reis Machado), foi um passo importantíssimo para a legalização da capoeira e o resgate do seu valor, pois, com ela a capoeira passa a ser reconhecida como esporte nacional. Do outro lado, na capoeira angola estava Mestre Pastinha (Vicente Ferreira Pastinha) que seguiu reagindo àquela "mestiçagem" e procurando afirmar a pureza da capoeira, difundindo o seu estilo Angola, procurando deixar bem clara a diferenciação do estilo Regional.

Em 1937, a capoeira passa a ser permitida por lei e daí em diante não parou de crescer. Inicia-se a ascensão sócio-cultural, a Capoeira volta ao cenário das expressões culturais brasileiras, está presente na música, nas artes plásticas, na literatura, nos palcos. Termina a fase negra em sua história, quando a capoeira e todas as formas de manifestações ficaram totalmente marginalizadas pela sociedade, e passa a ser patrimônio de todo um povo.

A Capoeira sobrevive, o negro preservou sua luta, e ao transformá-la ,fizeram-na brasileira. Devemos aos negros essa capacidade de resistência e luta para sobreviver em condições duras e difíceis.


Atualmente, a Capoeira vem adquirindo maior número de adeptos em todas as raças e camadas sociais no Brasil e em outros países. E é nesses outros países que a Capoeira ganha a sua devida projeção mundial, por ser uma arte em ritmos e movimentos, que exprime toda a criatividade de um povo oprimido.



Apesar de todo esse desenvolvimento, a sociedade ainda pouco conhece sobre os verdadeiros valores e as contribuições que podem advir do conhecimento e prática da Capoeira.

CAPOEIRA ANGOLA

Antes de Mestre Bimba criar a Capoeira Regional, a Capoeira Angola era chamada apenas de Capoeira, mas com o surgimento da Regional de Bimba , aparece o termo Capoeira Angola. O mestre mais famoso e conhecido da Capoeira Angola é Mestre Pastinha. Ele dizia: "Capoeirista não é aquele que sabe movimentar o corpo, mas sim, aquele que deixa o corpo ser movimentado pela alma".

Talvez pelo fato da Capoeira Regional ter se expandido amplamente pelo Brasil, principalmente como uma modalidade de luta, passou-se a difundir a idéia de que a Angola não dispunha de recursos para o enfrentamento, afirmando-se ainda que as antigas rodas de capoeira, anteriores a Mestre Bimba, não apresentavam situações reais de combate. Porém, os velhos mestres fazem questão de afirmar que estes ocorriam de uma forma diferente da atual, em que os lutadores se valiam mais da agilidade e da malícia - ou da "mandinga", como se diz na capoeira - do que da força propriamente dita.


Mestre Pastinha, em seu livro Capoeira Angola, afirma que "sem dúvida, a Capoeira Angola se assemelha a uma graciosa dança onde a ginga maliciosa mostra a extraordinária flexibilidade dos capoeiristas. Mas, Capoeira Angola é antes de tudo, luta e luta violenta".
CAPOEIRA REGIONAL

A Capoeira Regional é o estilo de jogo da Capoeira criada por Manuel dos Reis Machado, o Mestre Bimba. Com a criação da Capoeira Regional surgiram novos golpes e movimentos, além de ter um ritmo mais dinâmico que o da Angola.

Quando Bimba começou a sentir que a "Capoeira Angola", que ele praticava e ensinou por um bom tempo, tinha se modificado, degenerou-se e passou a servir como "prato do dia" para "pseudocapoeiristas", que a utilizavam unicamente para exibições em praças, por possuir um número reduzido de golpes, deixava muito a desejar, em termos de luta. Aproveitou-se então do "Batuque” e da "Angola", colocando mais agilidade nos movimentos, pois queria ver um jogo mais alegre, festivo, acrobático e ágil, e criou o que ele chamou de "Luta Regional Baiana", a capoeira regional. Bimba aprendeu essa arte chamada de batuque, que é uma luta africana braba e violenta onde o objetivo era jogar o adversário no chão usando apenas as pernas, com o seu pai, Luiz Cândido Machado, que era campeão dessa arte.


Tudo isto aconteceu por volta do ano de 1928 e, esta modalidade de capoeira ganhou primeiramente o nome de capoeira regional baiana, por ser praticada somente em Salvador-BA. A partir da década de 30, quando foi instituído o Estado Novo, o Brasil passou por uma fase de muitas transformações políticas, culturais e sociais, onde a modernização era inevitável. Foi aí que surgiu a oportunidade de Mestre Bimba levar o seu estilo de capoeira para as classes mais privilegiadas da sociedade. Em 1936, ele fez a primeira apresentação pública de seu trabalho, e um ano depois foi convidado pelo governador da Bahia, General Juracy Magalhães para fazer uma apresentação no Palácio do Governo, onde estavam presentes várias autoridades importantes e muitos convidados de alta sociedade. Após este evento, a capoeira Regional foi reconhecida como esporte nacional e Mestre Bimba foi reconhecido pela Secretaria de Educação e Assistência Social da Bahia como professor de Educação Física, e a sua academia / escola, como a primeira do Brasil reconhecida por lei.


Mestre Bimba




Manoel dos Reis Machado era filho de Luiz Cândido Machado e de Dona Maria Martinha do Bonfim, nasceu dia 23 de novembro de 1900, no bairro do Engenho Velho em Salvador/BA, lado da Freguesia.

Seu apelido - BIMBA - resultou de uma aposta da parteira com a sua mãe, pois Dona Martinha acreditava que daria à luz uma menina e a parteira dizia que seria menino. A parteira ganhou a aposta e o pequeno Manoel recebeu o apelido de Bimba, por ser este o nome popular dado ao órgão sexual do homem na Bahia, referindo-se às crianças.

Começou na arte da capoeira com menos de 12 anos, tendo por mestre e professor um negro africano chamado Bentinho, que era capitão da Companhia Baiana de Navegação. Seu aprendizado com Bentinho durou cerca de quatro anos e após este período passou a ensi nar o que aprendeu e lecionava Capoeira Angola na capitania dos portos da Bahia. Bimba fez por mais de dez anos.

Mestre Bimba fundiu a Capoeira Angola com o Batuque, um tipo de luta que aprendeu com seu pai, que era campeão absoluto na Bahia, dando-lhe uma roupagem nova, um novo estilo, tornando-a mais rápida e ágil. Este novo estilo foi chamado Luta Regional Bahiana, por ser praticado, na época, somente na região de Salvador e mais tarde, já em franca expansão foi chamado de Capoeira Regional.

Em 1932, fundou sua primeira academia-escola de Capoeira Regional no Engenho de Brotas em Salvador. Era o Centro Cultural Físico Regional Baiano. A partir daí, Mestre Bimba começou a ser conhecido e a ficar famoso e ganhou dentre muitos o título "Pai da Capoeira Moderna".

Só em 1937 obteve o registro de sua academia junto à Secretaria de Educação, Saúde e Assistência Pública de Salvador e em 1942 fundou sua segunda academia no Terreiro de Jesus - rua das Laranjeiras, hoje rua Francisco Muniz Barreto, 1, onde continua funcionando, sob a direção de seu ex-aluno Vermelho-27.

Traído por falsas promessas do governo, falta de apoio e dificuldades financeiras, Mestre Bimba morreu em 15 de fevereiro de 1974, no Hospital das Clínicas de Goiânia, vítima de derrame cerebral.

Mestre Bimba foi carvoeiro, doqueiro, trapicheiro, carpinteiro, mas principalmente, capoeirista, MESTRE DE CAPOEIRA e a chama de sua existência estará sempre acesa no coração e na mente de todos os capoeiristas regionais, recebendo assim o reconhecimento de várias gerações e a consagração de sua genialidade e da sua mais conhecida criação, a CAPOEIRA.

Mestre Bimba não formava mestres. Para um indivíduo ter a graduação mais alta (titulação de Graduação dos Formandos Especializados) dada por mestre Bimba, era preciso passar pelos seguintes estágios: Exame de Admissão à Academia, Batizado, Formatura e o Curso de Especialização.


EXAME DE ADMISSÃO À ACADEMIA
O Mestre Bimba contava que não queria vadios, malandros, vagabundos em sua academia. Para ele essas pessoas causaram muitos danos para a imagem da capoeira. Para que a matrícula fosse realizada o pretendente tinha que ser trabalhador ou estudante e ser aprovado no exame por ele realizado. Dizia que em outros tempos aplicava uma "gravata" no pescoço do indivíduo e dizia: "agüenta aí sem chiar", se agüentasse estava matriculado, caso contrário ia aprender em outro lugar. O mestre dizia que perdeu muitos alunos e dinheiro com isso, porém justificava que em sua academia só queria machos.


Mais tarde mudou o exame, agora o aluno tinha que fazer a "ponte" auxiliado por ele, que deixava as mãos do calouro tocar ao chão e mandava que ele agüentasse um pouco: "mostra-me tua junta que te direi quem és, pois junta de mais ou de menos atrapalha". Depois "queda de rins" para o lado esquerdo e para o direito, no centro uma pequena parada tocando os calcanhares, apoiado apenas nas mãos. Feito isso ele dizia se o pretendente podia se matricular ou não.

BATIZADO


O Batizado consistia em colocar em cada calouro um apelido pelo qual ele seria agora reconhecido dentro da academia e nos meios capoeirísticos. Este apelido era o seu "Nome de Guerra": O tipo físico, o bairro onde morava, a profissão, o modo de se vestir, atitudes, um dom artístico qualquer, serviam de subsídios para o apelido. O apelido como dizia o mestre, também servia como disfarce para os capoeiristas antigos, pois assim a polícia não podia identificá-los pelo verdadeiro nome.
Batizar o aluno, na academia do mestre, era colocar o mesmo para jogar pela primeira vez com o acompanhamento do berimbau, já que o treinamento da seqüência era feito sem o acompanhamento de qualquer instrumento. O mestre escolhia o formado e tocava "São Bento Grande", que é o que caracteriza a Regional, o formado só acompanhava o calouro e o "forçava" a aplicar as defesas e "soltar" os golpes aprendidos. Ao final do jogo o mestre colocava o calouro no centro da roda e pedia que um formado lhe desse um apelido, ou ele mesmo dava. Depois de escolhido o nome todos batiam palmas e o mestre dizia: "A Benção do Padrinho" o calouro ao estender a mão para o formado que o batizou, recebia uma "Benção", golpe aplicado com o pé, que o jogava no chão. Porém este expediente era uma gozação e não era obrigatório, existiam calouros espertos que evitavam "tomar" a Benção e ficava por isso mesmo.


Este batizado é uma criação do mestre Bimba, dentro de sua academia, nunca existiu isso antes, no passado. Era uma característica da Regional que depois que já tinha um bom número de alunos batizados, fazia a "Festa do Calouro", a "Festa do Batizado". Portanto é bom que todos que realizam tal festa hoje, dêem o crédito, contem como surgiu este evento, é nossa obrigação resgatar as tradições da Regional de "seu" Bimba.


Atenção, essa coisa de ter que aplicar uma queda no aluno que está sendo batizado é uma adulteração do evento que deve ser evitado pois coloca em risco o calouro, sua integridade física e por que não moral. A queda é sempre uma conseqüência do jogo e não uma obrigação. Além do mais estão aplicando quedas que nem um bom capoeirista consegue cair bem, quanto mais um iniciante. Outra coisa, os "Mestres", "Professores" e "Formados" quando entram para batizar algum calouro, querem mostrar à todos, platéia, alunos, etc, que são fenomenais, aplicando toda espécie de movimento, na maioria das vezes saltos que nada têm a ver com a verdadeira Capoeira, roubando assim a cena do Calouro, que é quem naquela oportunidade tem que mostrar serviço. Um pouco de moderação e mais Capoeira seria o ideal nesta festa. O "Cobra" tem todas as rodas do mundo para demonstrar sua perícia, o Calouro não. E mais, para que golpes aplicados com tanta violência em um iniciante que nem reflexos ainda possui? A festa é do Calouro, ele é a principal figura daquele show, ele é quem deve aparecer. Esta é a lei do batizado, esta é a lei da Capoeira, segundo Bimba.

FORMATURA


Para formar-se em Capoeira Regional o aluno cursava nunca menos que seis meses: Bimba achava que com seis meses, um aluno considerado normal, com três aulas por semana estaria pronto para se formar. O exame para a formatura era feito em quatro domingos seguidos, no Nordeste de Amaralina, academia do mestre. Os alunos a serem examinados eram escolhidos por ele. Durante estes quatro dias, os alunos tinham que fazer tudo aquilo que ele pedisse em termos de Capoeira. Em outros tempos, contava ele, um dos requisitos exigidos durante o exame era derrubar com uma "Benção" um toro de Jaqueira bastante pesado e de base circular, o qual o mestre derrubava demonstrando a seus alunos como fazê-lo, e comentava rindo: "Os meninos ficavam a manhã inteira tentando derrubar o toro, alguns terminavam com os pés bastante inchados". No último domingo, o dia da escolha, o nervosismo era geral. Ao final do treino, Bimba dizia os nomes daqueles que tinham sido aprovados. Marcava o dia para lhes ensinar 23 novos golpes e também o dia da Formatura. O mestre não dava satisfações aos reprovados, nem eles pediam.


No dia da formatura o mestre todo vestido de branco, desde as primeiras horas da tarde, com um apito pendurado no pescoço, alegre, multando os Formados que chegavam atrasados ou aqueles cujas Madrinhas se atrasavam. A multa correspondia em pagar para os Formados antigos, uma ou mais cervejas ou "Mulher Barbada", uma bebida preparada por mestre Bimba, o único conhecedor da fórmula, a depender da falta cometida.


As formaturas tinham Paraninfo e Orador. Ao orador, que era um Formado mais antigo e escolhido pelos Formandos, cabia falar um breve histórico da Capoeira Regional e do mestre, colocando os presentes a par das coisas relacionadas com a luta e o ritual de formatura. Quando o Orador terminava, o mestre chamava o Paraninfo e lhe entregava as medalhas(Diploma) e os lenços azuis(graduação dos Formados) às Madrinhas. O Formando não podia tocar na medalha nem no lenço durante a Formatura, pois se assim o fizessem seria automaticamente multado. O Paraninfo colocava a medalha no peito esquerdo de cada Formando e as Madrinhas colocavam os lenços no pescoço de cada um.


Este lenço era a maneira do mestre homenagear os capoeiristas do passado que utilizavam um lenço de esguião de seda no pescoço para evitar o corte da navalha do inimigo, desferido sempre na carótida. Segundo Bimba, a navalha não corta seda. Os formandos se vestiam todo de branco, usando basqueteira, atendiam o chamado de Bimba que solicitava a demonstração de golpes, seqüência, cintura desprezada, jogo de esquete(jogo combinado), em seguida a prova de fogo , o jogo com os formandos, também chamado de "Tira medalha", um verdadeiro desafio, onde os alunos formados antigos tentavam tirar a medalha dos formandos com o pé, e assim manchar a dignidade e roupa impecavelmente branca. O aluno jogava com todos os seus recursos, enfrentando um capoeirista malicioso e técnico até o momento que o Mestre apitasse para encerrar o jogo. Dando continuidade ao ritual de formatura acontecia as apresentações de maculelê, samba de roda, samba duro e candomblé. A festa era realizada no Sítio Caruano, no Nordeste de Amaralina, na presença dos convidados e de toda a academia.
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO


Era um curso secreto onde só poderia participar os alunos formados por Mestre Bimba. Tinha como objetivo o aprimoramento da Capoeira , com uma ênfase para os ensinamentos de defesa e contra-ataque de golpes advindos de um adversário portando armas como navalha, faca, canivete, porrete , facão e até armas de fogo. Sua duração era de 3 meses divididos em 2 módulos, o primeiro com duração de 60 dias e era desenvolvido dentro da academia através de uma estratégia de ensino muito peculiar do Mestre. O segundo com duração de 30 dias e era realizado na Chapada do Rio Vermelho, tinha como conteúdo as "emboscadas". Ao final do curso o Mestre Bimba fazia uma festa aos moldes da formatura e entregava aos concluintes um "Lenço vermelho" que correspondia a uma titulação de Graduação dos Formandos Especializados.


Mestre Pastinha











Nasceu em 1889, filho do espanhol José Señor Pastinha e de Dona Maria Eugênia Ferreira. Seu pai era um comerciante, dono de um pequeno armazém no centro histórico de Salvador e sua mãe, com a qual ele teve pouco contato, era uma negra natural de Santo Amaro da Purificação e que vivia de vender acarajé e de lavar roupa para famílias mais abastadas da capital baiana.


Menino ainda, Pastinha conheceu a arte da capoeira com apenas 8 anos de idade, quando um africano que chamava carinhosamente de Tio Benedito, ao ver o menino pequeno e magrelo apanhar de um garoto mais velho resolveu ensinar-lhe a arte da capoeira. Durante três anos, Pastinha passou tardes inteiras num velho sobrado da rua do Tijolo em Salvador, treinando golpes como meia-lua, rasteira, rabo de arraia e outros. Ali ele aprendeu a jogar com a vida e a ser um vencedor.


Viveu uma infância feliz, porém, modesta. Durante as manhãs freqüentava aulas no Liceu de Artes e Ofício, onde também aprendeu pintura. À tarde, empinava pipa e jogava capoeira. Aos treze anos era o moleque mais respeitado e temido do bairro. Mais tarde, foi matriculado na Escola de Aprendizes Marinheiros por seu pai, que não concordava muito com a vadiagem do moleque. Conheceu os segredos do mar e ensinou aos colegas as manhas da capoeira.


Aos 21 anos voltou para o centro histórico, deixando a Marinha para se dedicar à pintura e exercer o ofício de pintor profissional. Suas horas de folga eram dedicadas à prática ca capoeira, cujos treinos eram feitos às escondidas, pois no início do século esta luta era crime previsto no código penal da república.


Em fevereiro de 1941, fundou o Centro Esportivo de Capoeira Angola, no casarão número 19 do Largo do Pelourinho. Esta foi sua primeira academia-escola de capoeira. Disciplina e organização eram regras básicas na escola de Pastinha e seus alunos sempre usavam calças pretas e camisas amarelas, cores do Ypiranga Futebol Clube, time do coração de Pastinha.


Mestre Pastinha viajou boa parte do mundo levando a capoeira para representar o Brasil em vários festivais de arte negra. Ele usava todos os seus talentos para valorizar a arte da capoeira. Fazia versos e chegou a escrever um livro, Capoeira Angola, publicado em 1964, pela Gráfica Loreto. Pastinha trabalhou muito em prol da capoeira, divulgou a arte o quanto lhe foi possível e foi reconhecido por muitos famosos que se maravilhavam com suas exibições.


Aos 84 anos e muito debilitado fisicamente, deixou a antiga sede da academia para morar num quartinho velho do Pelourinho, com sua segunda esposa, Dona Maria Romélia e a única renda financeira que tinha era a das vendas dos acarajés que sua esposa vendia. No dia 12 de abril de 1981, Pastinha participou do último jogo de sua vida. Desta vez, com a própria morte. Ele, que tantas vezes jogou com a vida, acabou derrotado pela doença e pela miséria.


Mestre Pastinha morreu aos 92 anos, numa sexta-feira, 13 de novembro de 1981, no abrigo D. Pedro II em salvador. Estava cego e paralítico. Pequeno e notável em sua arte, Pastinha nos deixou seus ensinamentos de vida em muitas mensagens fortes e inesquecíveis como esta: "Ninguém pode mostrar tudo o que tem. As entregas e revelações, têm que ser feitas soa poucos. Isso serve na capoeira, na família e na vida. Há momentos que não podem ser divididos com ninguém e nestes momentos existem segredos que não podem ser contados a todas as pessoas." (Mestre Pastinha 10/10/80).

Os alunos de Mestre Pastinha usavam calça preta, camisa amarela e jogavam calçados. Era a homenagem que o Mestre fazia ao time de seu coração o Ipiranga que usava as mesmas cores.

Traços de Mestre Pastinha- "Mandinga de escravo em ânsia de liberdade" "Capoeira foi para homem, menino, velho e até mulher não aprende quem não quer" "Cada um é cada um" "O negócio é aproveitar os gestos livres e próprios de cada qual" "Berimbau é primitivo mestre da vibração e ginga ao corpo da gente" "Sou discípulo que aprende um mestre que da lição"

Mestre Pastinha explicando a Chamada - "A chamada é uma filosofia do angoleiro, é a malícia do angoleiro. Por que hoje a humanidade se preocupa muito em ficar forte, em fazer artes marciais, em ficar atleta para jogar capoeira. A capoeira não depende disso , a capoeira depende da técnica , malícia e sagacidade. Quando o camarada tá muito brabo dentro da roda, quer bater , quer pisar, eu chamo ele. Ele vai entender do jeito que souber pois a violência do angoleiro não está em dar rasteira, nem pontapé, nem murro. A malícia do angoleiro está realmente nas chamadas."






Outros Mestres




Mestre Caiçara - Antônio Carlos Moraes

Uma das lendas da Capoeira; sua história mais parece tirada de livros de ficção. Numa época em que o Pelourinho não tinha o glamour de hoje, Mestre Caiçara ditava as regras num território de prostitutas e cafetões; de traficantes e malandros. Todos tinham que pedir a sua benção.Gravou um dos principais discos da Capoeira Angola onde exemplifica os diversos toques de berimbau, além de cantar ladainhas e sambas de roda. Faleceu em 26 de agosto de 1997.
Mestre Waldemar - Waldemar Rodrigues da Paixão

Mestre de capoeira baiano (Ilha de Maré, Bahia 1916 - Salvador, Bahia 1990), também conhecido como Waldemar da Liberdade ou Waldemar do Pero Vaz, dos nomes do bairro e da rua onde implantou sua capoeira. A fama de Waldemar como capoeirista e mestre de capoeira aparece nos anos 1940. Ele implanta um barracão na invasão do Corta-Braço, futuro bairro da Liberdade, onde joga-se capoeira todos os domingos, também ensinando na Rampa do Mercado na Cidade Baixa. Fica conhecida a diversidade dos jogos que ele pratica, dos mais lentos aos mais combativos, com afirmada preferência para os primeiros.

Mestre Traira - José Ramos Do Nascimento

Capoeira de fama na Bahia, marcou época e ganhou notabilidade ímpar na arte das Rasteiras e Cabeçadas. No disco fonográfico, produzido pela Editora Xauã, intitulado "Capoeira" - hoje uma das raridades mais preciosas para os estudiosos e adeptos desta Arte - tem presença marcante envolvendo a todos os ouvites. Sobre a beleza e periculosidade do seu jogo, assim se referiu Jorge Amado: "Traíra, um cabloco seco e de pouco falar, feito de músculos, grande mestre de capoeira.

Vê-lo brincar é um verdadeiro prazer estético. Parece bailarino e só mesmo Pastinha pode competir com ele na beleza dos movimentos, na agilidade, na rigidez dos golpes. Quando Traíra não se encontrana Escola de Waldemar, está ali por perto, na Escola de Sete Molas, também na Liberdade". Mestre Traíra também teve importante participação no filme "Vadiação", de Alexandre Robatto Filho, produzido em 1954, junto aos outros grandes capoeiristas baianos como Curió, Nagé, Bimba, Waldemar, Caiçara, Crispim e outros."
Mestre Canjiquinha – Washington Bruno da Silva
Nasceu em 25 / 11 / 1925 e viveu até 08 / 11 / 1994, filho de José Bruno da Silva um grande alfaiate e de Amália Maria da Conceição uma lavadeira. Seu primeiro contato com a capoeira foi num local conhecido como banheiro de seu Otaviano na frente de uma quitanda no Matatu Pequeno, Brotas na Baixa do Tubo. Num dia de domingo em 1935 um cidadão chamado Antonio Raimundo (Mestre Aberre) convidou Canjiquinha a participar da brincadeira que ali rolava, e a partir da agilidade demonstrada por Canjiquinha mestre Aberre decidiu treiná-lo. Passou 8 anos aprendendo, quando seu mestre disse: - Meu filho você corre este lugar aí, o que você ver de bom você pega e de ruim você deixa pra lá.

Na opinião de Mestre Canjiquinha a capoeira não existe divisão entre angola e regional, ele dizia que ele era capoeira e obedecia ao toque, se tocar maneiro jogo amarrado, se tocar apressado você apressa.
Mestre Canjiquinha dono de um repertório inesgotável de músicas e improvisos, tendo uma grande facilidade de comunicação com o publico, acho que devido a essas foi convidado a participar de alguns filmes como: O Pagador de Promessas, Operação Tumulto, Capitães de Areia entre outros, alem de algumas fotonovelas com Silvio César e Leni Lyra. Teve como alunos alguns até renomados a mestre: Antonio Diabo, Burro Inchado, Madame Geni, Victor Careca, Robertão, Manoel Pé de Bode, Paulo dos Anjos, Brasília, Lua Rasta, Cristo Seco entre outros mais.
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Mestre João Grande - João Oliveira dos Santos

Um dos maiores mestres da Capoeira, vive atualmente em Nova York, onde ensina a sua arte e transformou seu destino, tendo recebido um título de doutor honoris causa, em reconhecimento pela sabedoria e riqueza de seu trabalho. Waldeloir Rego sobre ele escreveu, em 1969: "é dentre todos os grandes capoeiristas jovens o que mais truques de ataque e de defesa conhece, contribuindo para isso a flexibilidade fora do comum de seu corpo, tornando-o o mais ágil de todos os capoeiras da Bahia. Quando em pleno jogo é um grande bailarino. Canjiquinha (...) saiu com um tipo de frase muito sua, de que: - 'Foi Deus quem mandou João Grande jogar capoeira'." Foi discípulo de mestre Cobrinha Verde. Integrou também a delegação brasileira no Premier Festival International des Arts Nègres, em Dakar (Senegal).
Mestre João Pequeno - João Pereira dos Santos

Aluno de mestre Gilvenson e depois discípulo de Mestre Pastinha, de quem se tornou continuador. Integrou em 1966 a delegação brasileira no Premier Festival des Arts Nègres, em Dakar (Senegal).Hoje, aos 80 anos, ainda mantém Academia de Capoeira, no Forte Santo Antônio (centro histórico de Salvador). Em 1970, Mestre Pastinha assim se manifestou sobre ele e seu companheiro João Grande: "Eles serão os grandes capoeiras do futuro e para isso trabalhei e lutei com eles e por eles. Serão mestres mesmo, não professores de improviso, como existem por aí e que só servem para destruir nossa tradição que é tão bela. A esses rapazes ensinei tudo o que sei, até mesmo o pulo do gato".

Samuel Querido de Deus

Um dos capoeiristas mais falados pelos antigos. Era considerado imbatível nas rodas, temido por todos os capoeiristas. Seu nome não chegou tão famoso aos dias de hoje quanto os de Pastinha ou Bimba, já que esses tinham academias no centro, inovaram a capoeira e fizeram discípulos que divulgaram seus ensinamentos. Mas Querido de Deus também entrou para a história, impressionando o povo da capoeira e intelectuais e estudiosos da nossa arte daquela época (estamos falando das décadas de 30 e 40). Edison Carneiro considerava-o "o melhor capoeirista que já se viu". Antonio Lberac Pires nos mostra um artigo do Jornal "O Estado da Bahia" de 13 fevereiro de 1937, no qual está escrito que no Segundo Congresso Afro-Brasileiro, realizado em Salvador, quem comandou a apresentação de capoeira foi Querido-de-Deus, "considerado pelos outros capoeiristas como o melhor entre eles". E também, é claro, ele é citado no essencial livro "Capoeira Angola", de Waldeloir Rêgo.
Mestre Leopoldina - Demerval Lopes de Lacerda

Demerval Lopes de Lacerda, conhecido como Mestre Leopoldina, nasceu em 12 de fevereiro de 1933. Começou a aprender capoeira aos 18 anos, com o Quinzinho, um jovem malandro carioca, valente, temido e respeitado na região da Central do Brasil (RJ). Um ano depois, Quinzinho foi preso e assassinado na prisão. Leopoldina sumiu por uns tempos, e treinava sozinho, até que soube que Valdemar Santana, lutador bastante conhecido na época, trouxera da Bahia um capoeirista de nome Artur Emídio. Leopoldina foi apresentado a Artur, que o convidou para jogar. "Fui lá, meio envergonhado, e fiz aquilo que o finado Quinzinho tinha me ensinado.


No começo a coisa correu bem, mas aos poucos Artur começou a crescer, e era pernada por tudo que era lado, e percebi que ele era mais fera ainda que o Quinzinho". Foi assim que Leopoldina, aprendiz da capoeira carioca, foi apresentado à capoeira baiana. Leopoldina continuou aprendendo com Mestre Artur Emídio, e hoje é Mestre consagrado, muito respeitado, tanto por seu jogo quanto pela habilidade com o berimbau, e por suas composições, admiradas e cantadas em todo o Brasil. É uma das maiores expressões da capoeira antiga, cheia de malandragem e mandinga. É dono de uma simpatia e um carisma enormes, e já cunhou frases pitorescas do repertório da capoeira, como esta, que nos foi revelada uma vez em Guaratinguetá: "a capoeira é a maçonaria da malandragem!".


Em 2007 foi lançado o documentário “Mestre Leopoldina: A Fina Flor da Malandragem”, com depoimentos do próprio Mestre.
Faleceu em 17 de outubro de 2007 em São José dos Campos/SP, deixando muita tristeza e saudade nos corações de todos os capoeiristas.




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